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Santos e Mangueira: duas paixões juntas?

As tradições da verde e rosa do carnaval e do glorioso alvinegro praiano podem estar juntas em 2012, segundo anunciou o presidente da mangueira, Ivo Meirelles, no seu blog. Trata-se de uma parceira proposta à escola carioca, com patrocínio de um grupo de investidores ligados ao clube paulista, para que o desfile da Mangueira abra as comemorações dos 100 anos do Santos F.C. Obviamente, o enredo incluiria uma grande homenagem ao rei do futebol, cuja presença seria um trunfo para o desfile. 

Penso que, se bem desenvolvido, daria um excelente enredo: o time do Santos já parou uma guerra e o Pelé é uma das dez “coisas” mais conhecidas no mundo (dizem que a 1ª é a coca cola). Além disso, as histórias das duas agremiações se cruzam: Pelé esteve presente no lançamento da pedra fundamental do Palácio do Samba e o mestre Jamelão – que era Vasco no Rio e Santista em Sampa – recebeu uma bela homenagem na Vila Belmiro em 2006 (foto acima). Por fim, o Santos é o mais carioca dos clubes paulistas, sagrou-se bi-campeão mundial em pleno Maracanã. Foi lá também que Pelé marcou seu milésimo gol. Olha, mais um pouco, eu desenvolvo este enredo…. rs. 

Como santista e mangueirense, apaixonado por futebol e samba, eu adoraria ver o Santos homenageado pela Manga. Mas….. enredo não se compra, a comunidade é quem tem que comprar o enredo. Infelizmente, isto não aconteceu. A possibilidade do Santos ser homenageado pela verde e rosa não repercutiu bem na comunidade mangueirense, apesar da grana e das dívidas da escola. Uma pena! Penso que seria bom para ambas as partes e, depois do enredo pronto, acho que o resultado ficaria ótimo!

Outro fator negativo: futebol e samba parece não combinar no Rio, foi assim com o Flamento na Estácio e com o Vasco na Tijuca. Mas…. Mangueira é Mangueira e o Santos é o Santos….

Enfim … acho que não será desta vez. Torço muito para que eu me engane nesta previsão, pois seria lindo demais ver o Santos em verde e rosa e a Mangueira em branco e preto no carnaval de 2012!

A voz do morro

No último feriado (09/07), estive mais uma vez na quadra da escola de samba Mangueira, no Rio de Janeiro. Acompanhado da minha esposa e de um grupo de amigos, curti bastante a feijoada da verde e rosa. Sem dúvida, a escola de samba faz parte da cultura popular brasileira, mais forte ainda no Rio. Lá, pude perceber a força do samba, como meio de promover a integração social e como forma de manifestação da vida cotidiana nas comunidades. Quanta emoção! Sei lá, Mangueira!

Fiquei emocionado com a apresentação da escola Salgueiro na quadra da estação primeira (isso mesmo, há disputa de carnaval, mas não há a rivalidade doentia do futebol). A emoção veio ao ver a raça dos componentes da agremiação e a felicidades das pessoas ali…. as pessoas estavam felizes, independentes dos problemas pessoais e/ou sociais que poderiam estar enfrentando. Não sou especialista no tema, mas entendo que a música, a dança e a cultura popular devem ter este objetivo: deixar as pessoas felizes! Sempre digo: entre o erudito e o popular, sou mais o popular.

Claro, que há interesses comerciais (a festa da mangueira tinha vários patrocinadores), mas prevaleceu ali a alegria das pessoas e a grandeza da instituição Mangueira, constituída na favela, por gente simples, pobre, mas talentosa, virtuosa e apaixonada. Baluartes!

 Há também a exposição do corpo feminino, mas não sou moralista. Acho bonito! O samba tem sensualidade, mas não vejo apelação (como no funk). No meio do samba, percebi um alvoroço. Briga? Não! Lá não tem isso, não mesmo! Era o Ronaldinho Gaucho. Um camarote até então vazio, lotou! Ficou cheio de mulheres, selecionadas por um segurança do jogador. Outro aspecto da cultura brasileira veio à minha mente: a valorização do talento e da riqueza rápida, em contraposição à valorização ao trabalho, presente em Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda. Claro, a riqueza rápida, não pela via do trabalho, também era o objetivo de várias das mulheres que subiram ao camarote.

Mas este não era o núcleo protagonista desta história. A atração principal era os ritmistas, as baianas, as bandeiras das agremiações, as mulatas e a multidão. O camarote do Gaucho não foi o foco! Os atores principais eram pessoas comuns. Esta inversão de papéis entre protagonistas e coadjuvantes foi promovida por ele: o samba!

“ Eu sou o samba /A voz do morro sou eu mesmo sim senhor / Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei dos terreiros / Eu sou o samba / Sou natural aqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem leva a alegria para milhões / De corações Brasileiros / Mais um samba queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo do país / Viva o samba vamos cantando esta melodia / Pro Brasil feliz” (A voz do morro, de Zé Ketti).