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Cultura política e cidadania incompleta

Em posts anteriores, destaquei os avanços sociais, a retomada do crescimento econômico e o aperfeiçoamento das instituições políticas brasileiras como processos em marcha e com trajetória crescente, ainda que em ritmo abaixo do desejado, mas que se mantidos por mais tempo, elevará o estágio de desenvolvimento brasileiro.

No entanto, tais conquistas não se traduziram em novas relações sociais que privilegiam o interesse coletivo em detrimento do individualismo ou em uma transformação da cultura política capaz de fazer a maioria da sociedade brasileira reconhecer não apenas os direitos, mas também os deveres de cidadania. 

 Cotidianamente, presenciamos cenas que ilustram a dificuldade da sociedade brasileira em aceitar obrigações que subordinem seus interesses individuais em nome da melhoria da vida social. Por exemplo, por que muitos jovens fingem dormir sentados diante de um idoso em pé em um ônibus/ metrô lotado? Por que não titubeamos em atender o celular durante a aula/ cinema, atrapalhando uma sala inteira? Por que a sociedade brasileira não zela pela coisa pública? São casos banais, mas bastante representativos da nossa cidadania incompleta.

 Em 01/03/2011, o Prof. Milton Lahuerta proferiu aula magna do curso de Ciências Socais da Unifesp e abordou com maestria o que ele definiu como cultura da transgressão. Muito resumidamente, a dificuldade de articular interesses coletivos nos leva, às vezes em nome da sobrevivência, a desrespeitar regras básicas do Estado de direito. Estas atitudes não ficam apenas impunes, mas são socialmente aceitas e, muitas vezes, recomendáveis. Afinal, malandro é malandro, mané é mané! Podes crer….

 As explicações para este comportamento individualista-anárquico têm raízes históricas e estão presente em clássicos da sociologia brasileira. O que me inquieta é a dificuldade em superar esta herança do nosso processo de formação? Nossa história recente mostra que não basta apenas buscar estágios mais elevados de desenvolvimento capitalista.

 O milagre brasileiro foi capaz de montar um parque produtivo bastante complexo, de promover a urbanização em duas décadas junto com avanços nos indicadores sociais. Porém, esta transformação econômica com repressão do regime militar produziu uma cultura política que reforçou o individualismo e à aversão ao Estado como representação do interesse coletivo.

Desde 2004, retomamos uma rota de crescimento econômico com avanços sociais, agora sob um regime democrático, mas ainda de baixa qualidade, uma vez que serviu para conferir direitos, mas ainda é incapaz de difundir deveres e responsabilidades cívicas em nossa sociedade. Mesmo com queda recente das desigualdades e com a formação de classe média mais robusta, não há sinais de que isso tenha produzido mudanças na forma de ação coletiva e de atuação política dos brasileiros. Ao contrário, a sociedade brasileira (e a nova Classe C é exemplar) continua procurando a solução dos problemas na esfera do mercado (mais especificamente, no supermercado) e não na esfera política.

Como fazer para aproveitar as condições atuais mais favoráveis para completar a nossa democracia? Aqui está uma questão central para as ciências sociais brasileiras hoje.

Forte abraço,

Daniel Vazquez

Obs.: Foi um prazer reencontrar o Prof. Milton e vê-lo dar aula com a mesma disposição e entusiasmo de quando fui aluno dele na Unesp/ Araraquara.

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

Esta frase da música do Skank possui significado enorme para a grande maioria dos meninos deste país. Eu também sonhei em ser jogador de futebol! E pude realizar este sonho no último domingo, quando disputei uma partida na Vila Belmiro, em um evento comemorativo da conquista da Copa do Brasil pelo Santos. Foi um presentão que ganhei da minha esposa, que de forma genial preparou esta surpresa pra mim.

Recebi o uniforme, fui ao vestiário do Santos, lá teve uma orientação do treinador e um vídeo motivacional. “Vá e vença”, esta era a mensagem. Entrei em campo, a torcida vibra (família e amigos e a gravação no sistema de som do estádio), toca o hino nacional, os times se cumprimentam. O “cara e coroa” inicial, fui o capitão do meu time! O juiz apita, a bola rola na Vila Belmiro!

Meu time venceu por 3×0, beneficiado por pelo menos 5 jogadores sub-20, enquanto que no time adversário era de acima de 40 anos e 80 quilos…rs. No jogo, demonstrei toda minha má forma física….rs. Mas, futebol é motivação. Corri bastante e cheguei perto de fazer história, marcando um gol na Vila. Mas não foi possível… valeu demais! Ao final, ainda pude receber a faixa de campeão da Copa do Brasil, entregue pelo ex-craque Lima (bicampeão mundial pelo peixe). Antes de voltar para o vestiário, uma entrevista coletiva para a imprensa.

Conclusão: voltei a ser criança! Promover experiências únicas é a estratégia do experience marketing, que se baseia na idéia de que uma experiência marca mais do que dinheiro, brindes ou qualquer outro tipo de premiação. Certamente, minha relação com o Santos e com a Vila Belmiro foi bastante ampliada, toda vez que eu for ao estádio lembrarei que um dia eu fui um jogador de futebol e tive o privilégio de disputar uma partida naquele campo.

Pra mim, foi bom demais e vale a dica para fortalecer marcas e ampliar o relacionamento do público com uma determinada empresa.

Outro lado do sonho de ser um jogador de futebol tem a ver com a perspectiva de mobilidade social, daquilo que se identifica como “vencer na vida” pelo talento, ter acesso aos benefícios da fama, virar ídolo, poder comprar aquele carrão, etc. Muitas vezes, tais aspirações são colocadas antes das obrigações inerentes à carreira de um atleta, na qual a disciplina e a dedicação são condições para o sucesso. Fatores estes que determinam o sucesso ou o fracasso na trajetória dos meninos que sonham em jogar futebol (senti na pele, a dificuldade de correr a extensão daquele campo).

O livro “Sociologia da juventude: futebol, paixão, sonho, frustração, violência”, de Carlos Alberto Máximo Pimenta descreve a sequência que vai desde o sonho do garoto (de ser jogador de futebol), passando pelas projeções e expectativas, até bater na frustração de quem não conseguiu atingir o objetivo e também não tem outra perspectiva.

Não é meu caso! Pra mim, não existe frustração. Entrei no clima, vesti a fantasia e fiz festa! Gostaria que o esporte fosse menos encarado como uma loteria e mais valorizado como uma atividade saudável, que sociabiliza as crianças e as prepara para o trabalho em equipe.

A voz do morro

No último feriado (09/07), estive mais uma vez na quadra da escola de samba Mangueira, no Rio de Janeiro. Acompanhado da minha esposa e de um grupo de amigos, curti bastante a feijoada da verde e rosa. Sem dúvida, a escola de samba faz parte da cultura popular brasileira, mais forte ainda no Rio. Lá, pude perceber a força do samba, como meio de promover a integração social e como forma de manifestação da vida cotidiana nas comunidades. Quanta emoção! Sei lá, Mangueira!

Fiquei emocionado com a apresentação da escola Salgueiro na quadra da estação primeira (isso mesmo, há disputa de carnaval, mas não há a rivalidade doentia do futebol). A emoção veio ao ver a raça dos componentes da agremiação e a felicidades das pessoas ali…. as pessoas estavam felizes, independentes dos problemas pessoais e/ou sociais que poderiam estar enfrentando. Não sou especialista no tema, mas entendo que a música, a dança e a cultura popular devem ter este objetivo: deixar as pessoas felizes! Sempre digo: entre o erudito e o popular, sou mais o popular.

Claro, que há interesses comerciais (a festa da mangueira tinha vários patrocinadores), mas prevaleceu ali a alegria das pessoas e a grandeza da instituição Mangueira, constituída na favela, por gente simples, pobre, mas talentosa, virtuosa e apaixonada. Baluartes!

 Há também a exposição do corpo feminino, mas não sou moralista. Acho bonito! O samba tem sensualidade, mas não vejo apelação (como no funk). No meio do samba, percebi um alvoroço. Briga? Não! Lá não tem isso, não mesmo! Era o Ronaldinho Gaucho. Um camarote até então vazio, lotou! Ficou cheio de mulheres, selecionadas por um segurança do jogador. Outro aspecto da cultura brasileira veio à minha mente: a valorização do talento e da riqueza rápida, em contraposição à valorização ao trabalho, presente em Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda. Claro, a riqueza rápida, não pela via do trabalho, também era o objetivo de várias das mulheres que subiram ao camarote.

Mas este não era o núcleo protagonista desta história. A atração principal era os ritmistas, as baianas, as bandeiras das agremiações, as mulatas e a multidão. O camarote do Gaucho não foi o foco! Os atores principais eram pessoas comuns. Esta inversão de papéis entre protagonistas e coadjuvantes foi promovida por ele: o samba!

“ Eu sou o samba /A voz do morro sou eu mesmo sim senhor / Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei dos terreiros / Eu sou o samba / Sou natural aqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem leva a alegria para milhões / De corações Brasileiros / Mais um samba queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo do país / Viva o samba vamos cantando esta melodia / Pro Brasil feliz” (A voz do morro, de Zé Ketti).