Arquivo do mês: junho 2011

A Nova Miami Brasileira

Santos é a 9ª maior renda per capita do país. Comentei este dado no jornal A Tribuna de hoje. Além de divulgar a ótima matéria da jornalista Alcione Herzog, destaco três pontos que complementam meus comentários na reportagem:

1) Os problemas apontados exigem soluções metropolitanas, como um consórcio de saúde, a implantação de meio de transporte de médio porte (como o VLT) e políticas de incentivos aos investimentos públicos e privados em municípios (ex.: um campus grande de universidade pública, estrada parelheiros-itanhaém, ZPE, etc…).

2) a renda per capita média (IBGE, via Censo) é bem maior que a renda média do mercado formal de trabalho (MTE, via Caged). São dois motivos: a) salários mais altos auferidos em outros municípios, principalmente no pólo industrial de Cubatão e na Capital; b) rendas mais altas dos profissionais liberais (médicos, advogados, comércio exterior etc.) e empresários, entre outros grupos que concentram renda, uma vez que Santos (e região) em geral oferece baixa remuneração aos assalariados dos diferentes setores e graus de escolaridade;

3) Por isso, há forte indício de alta desigualdade de renda em Santos (com corte mais alto pela “expulsão” ressaltada na matéria) e na região como um todo, com intensidade ainda maior, só que os dados divulgados pelo Censo ainda não permitem confirmar esta hipótese . Além disso, não há evidência de que Santos esteja entre as 10 mais nos índices de qualidade de saúde e educação. Na última edição do IPRS (Seade), Santos ocupava as posições 365º e 103º no ranking estadual de longevidade e educação, respectivamente. http://www.seade.gov.br/projetos/iprs/

Como eu disse, renda elevada é bom indicador crescimento, mas o desenvolvimento deve vir acompanhado de políticas públicas de qualidade e redução da desigualdade de renda.

Confiram a matéria de A Tribuna, assinada por Alcione Herzog, no link http://www.atribuna.com.br/noticias.asp?idnoticia=100569&idDepartamento=5&idCategoria=2

Forte abraço!

Lições de economia política

Divulgando a entrevista do Prof. Luiz Gonzaga Belluzzo, na folha de hoje. Destaco dois trechos abaixo que vão ao encontro de post anteriores publicados aqui.

 Sobre contornar a crise nas economias centrais

“Na verdade é mudar a governança do sistema financeiro, como foi no pós-guerra, controlando os bancos. Era a repressão financeira, a imposição de limites, de regras de contingenciamento, de obrigatoriedade de dirigir o crédito para determinada direção. É preciso dar direção ao crédito. Se não fica nisso. O Estado socorre de forma muito decida, mas esse esforço se dissipa. Trocou papéis tóxicos por passivos no BC. Depois passou a regular o “quantative easing”, passou a regular preços e rendimento dos títulos longos para dar fôlego a economia. Mas o crédito não cresce porque as famílias não podem tomar. Porque estão engasgadas com a dívida anterior. E as empresas têm caixa mas não investem porque olham para as famílias”.

Sobre câmbio valorizado e desindustrialização no Brasil

“Se você olha o que está acontecendo com a indústria brasileira você fica preocupado. Por causa da valorização do câmbio. Tem gente que diz que podemos virar a Austrália, sem indústria. O que é uma afirmação patética. Não se pode comparar um país que tem 20 milhões de habitantes e que nunca teve indústria e que se especializou em commodities com um que tem 200 milhões e que tem uma economia urbana industrial bastante desenvolvida. Você imagina destruir toda a base industrial brasileira, onde estão os empregos, as relações com os serviços. Você olha a balança comercial setor por setor no agregado e no setorial. Desde 2005 se inverteu. Até 2005 tínhamos um superávit crescente. De repente inverteu porque a economia passou a crescer e a taxa de câmbio se valorizou. É um mergulho em que a curva vai ficando mais empinada. O que significa que a velocidade de aumento do déficit da indústria aumenta. E isso é muito sério”.

Boom imobiliário – valor

No valor econômico de hoje, a reportagem de Fernanda Pires, destaca a “explusão” dos santistas menos abastados e dos jovens, devido ao boom imobiliário e ao padrão de construção que predomina em Santos.

O caso selecionado pela reportagem mostra um jovem casal com renda de R$ 4.500,00 que só conseguiu comprar apto. em Praia Grande. Nada contra, contudo, além de santistas, eles mantém seus vínculos familiares, de amizade, de emprego e estudo em Santos, com impacto sobre o trânsito da região e demanda sobre o transporte de médio porte (que não temos! A Lenda do VLT).

Detalhe: a reportagem fala em classe C, mas o referido casal tem uma renda conjunta próxima ao triplo da renda média do trabalhador formal em Santos.

Por último, a reportagem afirma que o Plano Diretor busca diversificar os empreendimentos. Acompanhei este processo desde o início (já escrevi outros posts sobre isso também) e posso afirmar que o novo plano trará alguns avanços, mas as mudanças serão insuficientes para que o mercado imobiliário se volte para a produção de unidades habitacionais mais populares, em regiões menos adensadas.

Quem quiser conferir novamente a apresentação que fiz no Conselho de Desenvolvimento Econômico de Santos, junto com meu amigo Pascoal Vaz,  no início do processo de revisão do plano é só acessar: http://www.santos.sp.gov.br/frames.php?pag=/planejamento/plandir.php

Vale ressaltar também a importante participação do Fórum da Cidadania e do Sindicato dos Arquitetos de Santos neste processo. Uma luta inglória, mas a sensação de dever cumprido é o que vale!

Abaixo, as manchetes e um resumo das matérias publicadas no Valor.

Forte abraço!

Boom de imóveis de alto padrão “expulsa” a classe C de Santos

Fernanda Pires | Para o Valor, de Santos

A falta de áreas no município em Santos, no litoral de São Paulo, tornou a cidade o paraíso da construção civil de alto padrão nos últimos anos e está expulsando a classe C, principalmente para cidades vizinhas. Com dinheiro em caixa depois da abertura de capital na Bolsa, e aproveitando a volta do financiamento imobiliário, grandes empresas do setor desembarcaram em Santos e encontraram terreno fértil na cidade, que tem uma das maiores médias de poupança por habitante do país.

Morar na Praia Grande vira alternativa

O assistente administrativo Thiago Pedro Pereira Leal e a vendedora Allyne da Costa Leal casaram-se em 2010 e pretendiam continuar morando em Santos. Mas a renda mensal de R$ 4.500 não foi suficiente para que o casal ficasse na cidade. “Quando começamos a procurar imóveis em Santos, fomos obrigados a buscar nas cidades vizinhas em razão dos altos preços”, afirma Leal, 27 anos. Além de caros, os apartamentos de um dormitório necessitariam de reforma, o que elevaria o gasto.

Revisão de Plano Diretor busca diversificar empreendimentos

À luz da valorização dos imóveis, Santos discute nesse momento a revisão do Plano Diretor e das leis de uso e ocupação do solo (da área insular e da continental). Os projetos entregues pelo Executivo à Câmara de Vereadores começam a ser votados hoje, depois de dois anos de elaboração. O governo tem maioria na Câmara.