Arquivo do mês: abril 2011

Desafios da metropolização

O ponto de partida é a boa e velha teoria da polarização: toda concentração (de população e/ou atividade econômica) produz forças de atração e repulsão, a partir do seu centro (cidade-pólo). Esta teoria é bastante útil para analisar a Região Metropolitana da Baixada Santista – RMBS. 

Diante das perspectivas abertas pelos investimentos na área de petróleo e gás, com a instalação da unidade de negócios da Petrobrás, e com a expansão das atividades motrizes portuária e industrial (Cubatão), retomou-se o crescimento econômico na região, puxado pelo ritmo nacional, espraiando os efeitos positivos sobre outros mercados, tais como a atividade imobiliária, comércio e serviços. Os investimentos são mais fortemente direcionados para o centro (força de atração) e, em contrapartida, expulsam atividades incompatíveis (força de repulsão), seja pela disputa do espaço físico limitado, seja pela elevação do custo de vida. Como este processo está sendo deflagrado em uma região metropolitana altamente adensada como a RMBS? Quais as políticas públicas requeridas para otimizar os efeitos positivos desta nova onda de crescimento na região e para enfrentar os desafios postos nas áreas de mobilidade urbana, trabalho e inclusão social?  

Abordarei este tema em um debate que será realizado no dia 29/04, às 19hs, na sede do Settaport (XV de novembro, 152, no Centro de Santos). No evento, pretendo abordar três pontos: a) tendências demográficas e a migração intrametropolitana; b) vulnerabilidade e segregação sócio-espacial e; c) qualidade das políticas públicas na região. 

Os leitores deste blog estão convidados a participar.

Forte abraço!

Juros altos e sobrevalorização cambial: como sair desta armadilha?

Aviso aos navegantes: este tópico é propositivo, mas tenho convicção de que estas sugestões estão fora da realidade. Não há a menor possibilidade de que isto possa ser colocado em pauta, mas também não tenho dúvida que seria uma solução eficaz. Este alerta inicial serve para não assustar ou para que eu não seja taxado de maluco! Vocês entenderão e retomo isso no final do post…. 

Defendo aqui que, não toda, mas uma boa parte da valorização do Real se deve ao diferencial de taxa de juros reais interna (7% a.a.) e externa e que, portanto, uma redução nos juros diminuiria a entrada de dólares no Brasil. Mas como cortar juros quando há riscos de pressão inflacionária e quando a economia cresce em ritmo superior ao seu PIB potencial (aff…)? Admitindo esta necessidade, a oferta monetária pode ser contida por meio dos depósitos compulsórios, junto com aquilo que defendo há pelo menos 5 anos: uma maior regulação pública sobre o mercado de crédito. 

Primeiramente, resolvi me certificar da validade do meu pressuposto. Em que medida a valorização do Real é explicada pelos juros altos no Brasil? Muitos analistas têm colocado que o grosso da entrada de dólares é via investimentos diretos devido ao crescimento econômico e perspectivas diante da Copa e das Olimpíadas. Conter este ingresso de capitais seria ruim, pois eles são produtivos e ajudam no crescimento, afinal, o Brasil precisará contar com eles para o aporte de investimentos necessários para sediar estes eventos. Logo, não há o que fazer! Inquieto, fui ver os números mais recentes (http://www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/ie5-01.xls): nos dois primeiros meses de 2011, de fato, o IED respondeu por mais de 70% da conta capital. No entanto, pouco menos de 30% foi investimento em carteira (financeiro) e, destes, mais de 70% foi em renda fixa. De cara, fazendo uma conta simples e desconsiderando os efeitos da dinâmica econômica, reduzir os juros poderia influenciar em cerca de 20% o preço do real (no limite, caso este fluxo fosse zero). Ou seja, ao invés de 1U$=1,6R$, a taxa de câmbio ultrapassaria 1U$=1,9R$! Significativo, a meu ver. 

Segundo, as análises “mainstream” diriam: os juros estão altos por conta da pressão inflacionária, se reduzir esta taxa a inflação explode. Por que a taxa básica de juros é o único instrumento de política monetária em discussão? Por que o governo tem sempre que pagar a conta? Defendo que os juros caiam e que, se for preciso adotar uma política monetária restritiva, que se faça por meio dos depósitos compulsórios. Certamente, isto não será bem-vindo, pois a conta passaria a ser paga pelos bancos que, por sua vez, são grandes financiadores de campanhas, são patrocinadores dos principais meios de comunicação (TV, internet, etc.). Quem apoiaria esta medida tão “impopular”?

Mas não é só isso: já que é pra ser heterodoxo, defendo uma regulação maior sobre o mercado de crédito. Cotas do compulsório poderiam ser liberadas para empréstimos voltados a setores estratégicos, por exemplo,em infra-estrutura. Talcomo ocorre com a habitação, onde parte dos depósitos compõe o SFH e só pode ser emprestado para o financiamento imobiliário, o que garante juros bem menores que outros tipos de empréstimos. Ou seja, fatias maiores do crédito deixariam de ser alocados segundo os cálculos capitalistas dos bancos. Penso ainda que isto contribuiria bastante para resolver uma questão estrutural da economia brasileira que é a baixa integração entres setores produtivo e financeiro.

 Não falei que era ousado e que não seria colocado em discussão? Que governo estaria disposto a comprar esta briga? E que povo defenderia seu governo diante dos previsíveis ataques dos setores prejudicados via mídia? E que empresa de comunicação não se sensibilizaria com a causa de clientes tão especiais? Parafraseando o capitão Nascimento, é o sistema…  

 Obs.: deixei de fora os efeitos dos juros sobre as contas públicas. Tem mais essa, mas falarei sobre isso em outra oportunidade.

Santos e Mangueira: duas paixões juntas?

As tradições da verde e rosa do carnaval e do glorioso alvinegro praiano podem estar juntas em 2012, segundo anunciou o presidente da mangueira, Ivo Meirelles, no seu blog. Trata-se de uma parceira proposta à escola carioca, com patrocínio de um grupo de investidores ligados ao clube paulista, para que o desfile da Mangueira abra as comemorações dos 100 anos do Santos F.C. Obviamente, o enredo incluiria uma grande homenagem ao rei do futebol, cuja presença seria um trunfo para o desfile. 

Penso que, se bem desenvolvido, daria um excelente enredo: o time do Santos já parou uma guerra e o Pelé é uma das dez “coisas” mais conhecidas no mundo (dizem que a 1ª é a coca cola). Além disso, as histórias das duas agremiações se cruzam: Pelé esteve presente no lançamento da pedra fundamental do Palácio do Samba e o mestre Jamelão – que era Vasco no Rio e Santista em Sampa – recebeu uma bela homenagem na Vila Belmiro em 2006 (foto acima). Por fim, o Santos é o mais carioca dos clubes paulistas, sagrou-se bi-campeão mundial em pleno Maracanã. Foi lá também que Pelé marcou seu milésimo gol. Olha, mais um pouco, eu desenvolvo este enredo…. rs. 

Como santista e mangueirense, apaixonado por futebol e samba, eu adoraria ver o Santos homenageado pela Manga. Mas….. enredo não se compra, a comunidade é quem tem que comprar o enredo. Infelizmente, isto não aconteceu. A possibilidade do Santos ser homenageado pela verde e rosa não repercutiu bem na comunidade mangueirense, apesar da grana e das dívidas da escola. Uma pena! Penso que seria bom para ambas as partes e, depois do enredo pronto, acho que o resultado ficaria ótimo!

Outro fator negativo: futebol e samba parece não combinar no Rio, foi assim com o Flamento na Estácio e com o Vasco na Tijuca. Mas…. Mangueira é Mangueira e o Santos é o Santos….

Enfim … acho que não será desta vez. Torço muito para que eu me engane nesta previsão, pois seria lindo demais ver o Santos em verde e rosa e a Mangueira em branco e preto no carnaval de 2012!

Cultura política e cidadania incompleta

Em posts anteriores, destaquei os avanços sociais, a retomada do crescimento econômico e o aperfeiçoamento das instituições políticas brasileiras como processos em marcha e com trajetória crescente, ainda que em ritmo abaixo do desejado, mas que se mantidos por mais tempo, elevará o estágio de desenvolvimento brasileiro.

No entanto, tais conquistas não se traduziram em novas relações sociais que privilegiam o interesse coletivo em detrimento do individualismo ou em uma transformação da cultura política capaz de fazer a maioria da sociedade brasileira reconhecer não apenas os direitos, mas também os deveres de cidadania. 

 Cotidianamente, presenciamos cenas que ilustram a dificuldade da sociedade brasileira em aceitar obrigações que subordinem seus interesses individuais em nome da melhoria da vida social. Por exemplo, por que muitos jovens fingem dormir sentados diante de um idoso em pé em um ônibus/ metrô lotado? Por que não titubeamos em atender o celular durante a aula/ cinema, atrapalhando uma sala inteira? Por que a sociedade brasileira não zela pela coisa pública? São casos banais, mas bastante representativos da nossa cidadania incompleta.

 Em 01/03/2011, o Prof. Milton Lahuerta proferiu aula magna do curso de Ciências Socais da Unifesp e abordou com maestria o que ele definiu como cultura da transgressão. Muito resumidamente, a dificuldade de articular interesses coletivos nos leva, às vezes em nome da sobrevivência, a desrespeitar regras básicas do Estado de direito. Estas atitudes não ficam apenas impunes, mas são socialmente aceitas e, muitas vezes, recomendáveis. Afinal, malandro é malandro, mané é mané! Podes crer….

 As explicações para este comportamento individualista-anárquico têm raízes históricas e estão presente em clássicos da sociologia brasileira. O que me inquieta é a dificuldade em superar esta herança do nosso processo de formação? Nossa história recente mostra que não basta apenas buscar estágios mais elevados de desenvolvimento capitalista.

 O milagre brasileiro foi capaz de montar um parque produtivo bastante complexo, de promover a urbanização em duas décadas junto com avanços nos indicadores sociais. Porém, esta transformação econômica com repressão do regime militar produziu uma cultura política que reforçou o individualismo e à aversão ao Estado como representação do interesse coletivo.

Desde 2004, retomamos uma rota de crescimento econômico com avanços sociais, agora sob um regime democrático, mas ainda de baixa qualidade, uma vez que serviu para conferir direitos, mas ainda é incapaz de difundir deveres e responsabilidades cívicas em nossa sociedade. Mesmo com queda recente das desigualdades e com a formação de classe média mais robusta, não há sinais de que isso tenha produzido mudanças na forma de ação coletiva e de atuação política dos brasileiros. Ao contrário, a sociedade brasileira (e a nova Classe C é exemplar) continua procurando a solução dos problemas na esfera do mercado (mais especificamente, no supermercado) e não na esfera política.

Como fazer para aproveitar as condições atuais mais favoráveis para completar a nossa democracia? Aqui está uma questão central para as ciências sociais brasileiras hoje.

Forte abraço,

Daniel Vazquez

Obs.: Foi um prazer reencontrar o Prof. Milton e vê-lo dar aula com a mesma disposição e entusiasmo de quando fui aluno dele na Unesp/ Araraquara.