Arquivo do mês: agosto 2010

O crescimento de Dilma e o desespero de Serra

A pesquisa Datafolha divulgada hoje mostra Dilma com 47% das intenções de votos, 17 p.p. a frente de Serra. Se a eleição fosse hoje, os números da pesquisa indicam vitória da candidata do PT no 1º turno, com 54% das intenções de votos. Vejam em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/786568-exposicao-em-programas-de-tv-e-horario-eleitoral-explicam-disparada-de-dilma.shtml

Esta é a maior vantagem até o momento a favor de Dilma e, justamente, na pesquisa Data folha que foi a última a colocá-la em 1° lugar nas intenções de votos. O que explica isso?

A campanha esquentou após a copa e, mais recentemente, quando o debate eleitoral ganhou mais espaço na mídia: inserções maiores (e tempos iguais) nos telejornais, um 1º debate, entrevistas e, finalmente, na propaganda eleitoral gratuita.

Dilma se tornou mais conhecida, Lula foi a TV, abraçando Dilma e dizendo: é ela! Lula joga seu baita peso político na sua candidata e o resultado está nos números. Além disso, com a campanha nas ruas (na TV, na internet, etc.) foi possível mostrar Dilma.

Sempre disse: Dilma não é um poste! Atribuo a ela, isto é, ao espaço que ela ganhou no governo quando assumiu a Casa Civil a reorientação da política econômica do governo Lula em direção ao compromisso com o crescimento econômico. Vale recordar o embate entre ela e Palocci sobre a proposta de déficit nominal zero, sobre a trajetória dos juros e na coordenação do PAC. Os resultados econômicos (PIB) e sociais (mercado de trabalho e gasto social) melhoraram, ampliado a popularidade do governo. Foi isso! Sábio (e não só intuitivo), Lula escolheu Dilma!

Por outro lado, Serra errou muito. Primeiro, na indecisão de lançar-se ou não candidato. (decerto, já previa dificuldades frente a uma reeleição tranqüila em SP). Segundo, repetiu a aliança de oposição ao governo, sem querer se opor a Lula (o que o transformou em um candidato sem plataforma, proposta ou discurso). Terceiro, cometeu erros crassos, como a atabalhoada escolha do vice e a tentativa patética de lançar-se como sucessor de Lula e não como opositor.

Ficou fake! É verdade que o povo não acompanha política com a atenção devida, mas essa estratégia de colar em Lula é uma tentativa de enganar o povo. Por que achar que o povo é tão estúpido? Ou seria desespero, ao saber que o povo estava percebendo melhorias na sua vida, com um mercado de trabalho mais aquecido e tendo acesso a mais bens e serviços (inclusive, à casa própria), via crédito, aumento real do salário mínimo e programas sociais.

Sem saída, Serra e equipe depararam-se com pesquisas qualitativas e decidiram: não adianta ir contra o governo, vamos tentar dizer que nós também somos Lula, o ninguém vai perceber. Estratégia foi despolitizar e tentar ludibriar, posicionando sua candidatura também como continuidade. Estratégia errada, o povo percebeu e Serra perdeu a credibilidade.

Por sua vez, Marina não rompeu seu isolamento político, não cresceu e não terá peso pra levar a decisão pro 2º turno, conforme mostra a pesquisa de hoje. Plínio surgiu como franco atirador, surpreendeu, mas não ganhou votos (não pontuou).

Eleição é uma caixinha de surpresa. O jogo é duro. Entretanto, acredito que estas tendências continuaram. Este blog continuará acompanhando as cenas dos próximos capítulos.

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Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

Esta frase da música do Skank possui significado enorme para a grande maioria dos meninos deste país. Eu também sonhei em ser jogador de futebol! E pude realizar este sonho no último domingo, quando disputei uma partida na Vila Belmiro, em um evento comemorativo da conquista da Copa do Brasil pelo Santos. Foi um presentão que ganhei da minha esposa, que de forma genial preparou esta surpresa pra mim.

Recebi o uniforme, fui ao vestiário do Santos, lá teve uma orientação do treinador e um vídeo motivacional. “Vá e vença”, esta era a mensagem. Entrei em campo, a torcida vibra (família e amigos e a gravação no sistema de som do estádio), toca o hino nacional, os times se cumprimentam. O “cara e coroa” inicial, fui o capitão do meu time! O juiz apita, a bola rola na Vila Belmiro!

Meu time venceu por 3×0, beneficiado por pelo menos 5 jogadores sub-20, enquanto que no time adversário era de acima de 40 anos e 80 quilos…rs. No jogo, demonstrei toda minha má forma física….rs. Mas, futebol é motivação. Corri bastante e cheguei perto de fazer história, marcando um gol na Vila. Mas não foi possível… valeu demais! Ao final, ainda pude receber a faixa de campeão da Copa do Brasil, entregue pelo ex-craque Lima (bicampeão mundial pelo peixe). Antes de voltar para o vestiário, uma entrevista coletiva para a imprensa.

Conclusão: voltei a ser criança! Promover experiências únicas é a estratégia do experience marketing, que se baseia na idéia de que uma experiência marca mais do que dinheiro, brindes ou qualquer outro tipo de premiação. Certamente, minha relação com o Santos e com a Vila Belmiro foi bastante ampliada, toda vez que eu for ao estádio lembrarei que um dia eu fui um jogador de futebol e tive o privilégio de disputar uma partida naquele campo.

Pra mim, foi bom demais e vale a dica para fortalecer marcas e ampliar o relacionamento do público com uma determinada empresa.

Outro lado do sonho de ser um jogador de futebol tem a ver com a perspectiva de mobilidade social, daquilo que se identifica como “vencer na vida” pelo talento, ter acesso aos benefícios da fama, virar ídolo, poder comprar aquele carrão, etc. Muitas vezes, tais aspirações são colocadas antes das obrigações inerentes à carreira de um atleta, na qual a disciplina e a dedicação são condições para o sucesso. Fatores estes que determinam o sucesso ou o fracasso na trajetória dos meninos que sonham em jogar futebol (senti na pele, a dificuldade de correr a extensão daquele campo).

O livro “Sociologia da juventude: futebol, paixão, sonho, frustração, violência”, de Carlos Alberto Máximo Pimenta descreve a sequência que vai desde o sonho do garoto (de ser jogador de futebol), passando pelas projeções e expectativas, até bater na frustração de quem não conseguiu atingir o objetivo e também não tem outra perspectiva.

Não é meu caso! Pra mim, não existe frustração. Entrei no clima, vesti a fantasia e fiz festa! Gostaria que o esporte fosse menos encarado como uma loteria e mais valorizado como uma atividade saudável, que sociabiliza as crianças e as prepara para o trabalho em equipe.

Economia brasileira: rumo certo e o longo caminhar

Vejam o relatório “Economia Brasileira em Perspectiva”, publicado pelo Ministério da Fazenda, disponível em http://www.fazenda.gov.br/portugues/docs/perspectiva-economia-brasileira/edicoes/Economia-Brasileira-Em-Perpectiva-Jun-Jul10.pdf

Mesmo considerando que o documento é governamental , os dados não mentem.  Sem dúvida, a economia brasileira está bem melhor, todos os indicadores mostram um quadro mais positivo em relação a 2002.

Se o objetivo do documento é comparar os resultados entre os governos FHC e Lula, a análise é útil. Embora deva se reconhecer que se trata de um processo, a gestão econômica do governo Lula, especialmente no seu segundo mandado, supera a do seu antecessor.

Através dos dados, é possível notar crescimento mais acelerado, comandado por uma demanda interna mais forte; inflação sob controle; expansão do volume de crédito e menores spreads (mesmo que ainda altos); menor vulnerabilidade externa; contas públicas equilibradas e aumento do gasto social e do investimento em detrimento do peso das despesas com juros em trajetória decrescente.  

Normalmente otimista com relação ao futuro do país, fico feliz em saber que tenho motivos reais para tanto. Mesmo com muita coisa a ser feita, a rota é positiva. É preciso mantê-la.

Prova disso, por exemplo, é que mesmo com as trajetórias favoráveis, nota-se que o peso das despesas com juros do governo federal (5,2% do PIB) ainda supera o total de despesas em educação, saúde e investimento da União (comparem as páginas 57 e 126).

Vou continuar batendo na tecla: há espaço para expansão do gasto social e do investimento, se a política monetária permitir.

A questão habitacional em foco

A notícia é “os bancos são obrigados a destinar 65% dos depósitos em poupança para o crédito habitacional, mas há o temor de que o crescimento da caderneta não acompanhe o dos empréstimos nesse setor”. Alguns comentários são úteis: 1) o papel do crédito na economia, atuando como um catalizador, permite antecipação de gastos e resulta em crescimento dos setores beneficiados; 2) a alocação do crédito não pode ser feita somente com base em cálculos capitalistas, ou seja, é preciso fazer política creditícia e direcionar crédito para atender setores de interesse estratégico; 3) como é o caso da habitação, diante do elevado déficit habitacional brasileiro, só é possível enfrentá-lo com crédito mais barato e com subsídios para as famílias com até 10 salários mínimos e com maior ênfase da produção pública para aquelas com até 3 salários mínimos; 4) O crédito habitacional no Brasil, apesar do ritmo forte de crescimento nos últimos anos, ainda é muito baixo (cerca de 3% do PIB). Há previsões de que possa chegar a 10% em mais quatro anos.

Portanto, se os recursos atualmente vinculados não forem suficientes para garantir a continuidade dos financiamentos habitacionais, não tem jeito: será preciso cativar mais recursos.

Diante disso, são levantadas algumas preocupações: 1) quanto ao nível de endividamento das famílias, mas os dados mostram que nível de inadimplência (acima de 90 dias) se manteve estável em apenas 1,5% durante todo o 1º semestre. Portanto, não há o que se preocupar! 2) quanto à valorização dos preços dos imóveis e riscos de formação de bolhas, considero uma preocupação real. Já é possível identificar disparates em algumas localidades, como na minha cidade de Santos, onde o programa Minha Casa, Minha Vida praticamente não existiu em função dos imóveis não se adequarem ao limite de preço do programa (R$ 130 mil).

Para conter o crescimento dos preços dos imóveis, é preciso financiar também a oferta e direcionar crédito com limites para valores de imóveis (condições melhores para construção de imóveis até 80 mil, por exemplo). Complementarmente, cabe aos municípios utilizar os instrumentos previstos no Estatuto das Cidades para conter o preço da terra e combate à especulação imobiliária.

Por fim, aproveito para divulgar o excelente trabalho que a ONG Ambienta – http://www.ambienta.org.br/ – tem feito em parceria com prefeituras municipais e com associação dos moradores. O projeto da Associação dos Cortiços de Santos é exemplar. Parabéns ao meu amigo Rafael e equipe.

A locomotiva PEDs

 Compartilho o texto do Prof. Otaviano Canuto, discutido na última sexta-feira no IE/ Unicamp. Com dados bastante ricos, o autor aponta que os Países em Desenvolvimento – PEDs estão desempenhando o papel de locomotiva do crescimento mundial, especialmente no cenário pós-crise.

Um dos pontos destacados no texto é o impulso dado pelos programas de investimentos em infra-estrutura e capital humano, redução da pobreza e inclusão social nos PEDs, os quais são capazes de estimular a demanda interna nestes países. Dessa forma,  a proteção social e as políticas ativas de redução da pobreza também se tornam um componente do crescimento global.

O trabalho está disponível em http://siteresources.worldbank.org/INTPREMNET/Resources/1Recoupling_or_Switchover_May2010.pdf

Análise do Gasto Social

Matéria de hj na Folha insinua um excesso de gasto social e um desequilíbrio das finanças públicas por conta disso. http://www1.folha.uol.com.br/poder/779915-orcamento-trava-expansao-do-gasto-social-no-pos-lula.shtml

No entanto, o texto não cita os recursos da seguridade social desviados pela DRU (Desvinculação das Receitas da União) que retira 20% do OSS para serem utilizados livremente, servindo para viabilizar o alcance das metas de superávit primário desde 1999.

A matéria também ignora os efeitos positivos da expansão do gasto social para a recuperação da atividade econômica pós-crise, bem como a contribuição dos programas de transferência de renda e do reajuste do salário mínimo para a redução dos índices de desigualdade e pobreza nos últimos anos.

Por fim, uma análise mais atenta das trajetórias das receitas e despesas dispostas no gráfico da matéria mostra o superávit do OSS ao longo do tempo, apenas com sado negativo em 2009 e em 2010, com tendência decrescente neste último ano.

Além disso, seria importante analisar a evolução do gastos público em comparação com o ritmo bem superior de expansão das despesas financeiras da União, especialmente quando as taxas de juros são elevadas. O conflito está aí: entre gasto não financeiro (social e investimento), de um lado, e despesas financeiras, de outro.

O debate da Band

Vi o 1º debate na Band… achei morno, o formato não permite um debate profundo de ideias. Considero que os debates são cada vez menos decisivos em uma eleição, exceto pela ausência ou por um ato falho muito grave cometido por algum candidato, o qual seria punido por isso ( obs.: na minha opinião, Lula só não ganhou no 1º turno na última eleição, porque faltou aos debates. No 2º turno, Lula foi e Alckmin teve menos voto que no primeiro turno… quem lembra disso?).

Com a presença de todos e com o desempenho normal das principais candidaturas, penso que dificilmente alguém pôde decidir ou mudar seu voto conscientemente após assistir um debate, muito embora eles sejam necessários e importantes. As regras fixas impedem o aprofundamento das ideias e o que acaba importando mais são as posturas dos candidatos (sob treino das equipes de marketing) e a defesa da mensagem geral da candidatura (oposição, situação, alternativa para que). Sobre estes dois pontos, tenho alguns comentários:

1) Dilma não é um “poste”, ela possui todos os requisitos necessários para ser presidente. Se o argumento “poste” era a esperança tucana, caiu por terra. Demonstrou nervosismo no começo, mas não ficou devendo em nenhuma resposta e posicionou-se claramente em defesa do governo Lula (mensagem geral da campanha dela). Sua primeira participação não deve ter sido convincente o suficiente para ganhar votos dos realmente indecisos; todavia, mas mais importante que isso, seu desempenho não lhe tirou votos. Dilma joga pelo empate e este foi o resultado da partida de ontem entre ela e seu principal adversário.

2) Serra também possui todos os requisitos pessoais para ser presidente. Também não foi mal no debate, manteve-se calmo o tempo todo e tentou passar a imagem de “mais preparado”. No entanto, em minha opinião, ele não conseguiu posicionar sua candidatura, pois não quis se colocar em oposição ao Governo Lula, diante dos elevados índices de aprovação popular do seu governo. Não entrou em questões polêmicas (pois poderiam ser interpretadas como ataque à adversária, exemplo de ato falho quando não se pode demonstrar ao eleitor as provas da acusação), nem discutiu questões amplas, limitou-se em questões específicas, como das Apaes, luz no campo ou dos mutirões de cirurgias de varizes (!?).

3) Marina fala bem, sua figura sempre emociona e empolga (embora, nem tanto ontem). Ela se coloca como alternativa, mas alternativa de que e com quem? Estas interrogações não foram resolvidas. Sua candidatura possui boas intenções, mas não demonstra ser viável no curto-prazo. Sem chances de ganhar o jogo, espera crescer e ser decisiva para levar a disputa para o segundo turno, para depois jogar peso em um dos lados da balança. Não vi propostas claras de Marina para a área social ou sobre a política econômica, por exemplo.

4) Plínio foi quem conseguiu colher mais frutos com este debate. Possui trajetória e tem qualidades pessoais indiscutíveis. Sua candidatura tem posicionamento claro: de oposição ideológica ao governo Lula (para à esquerda), reunindo dissidentes do PT. Sua condição de quem não tem nada a perder lhe deixou muito à vontade. Em um debate onde o marketing político molda os candidatos, destacou-se a espotaneidade de um senhor oitentão. Dessa forma, ele pode conquistar votos de protesto e sair do 1%.

Em suma, foi isso. Entre Dilma e Serra, deu empate. Em debates, a candidata petista – atual lider nas pesquisas, com um candidatura mais posicionada, com Lula ao seu lado e apoiada em um governo com alta aprovação popular (que de fato foi melhor que o de FHC/ Serra) – joga pelo empate. Marina não empolgou desta vez e nem conseguiu romper o isolamento político. Isolado por ideologia, Plinio foi destaque como franco atirador.