Arquivo do mês: julho 2010

Estrutura Social no período recente de crescimento

Avanços sociais demonstrados no trabalho do Prof. Waldir Quadros (IE/ Unicamp) confirmam a melhor fase do país nas últimas três décadas. Segue um trecho do trabalho:

“Ao longo do período pós 1980, em que não se logrou a implantação das bases para a retomada do crescimento sustentado, ocorreram três ciclos de crescimento econômico mais expressivo: em 1984-87 com uma expansão do PIB de 6,1% ao ano, em 1993-97 com 4,0% a.a. e agora em 2004-08 com 4,7% a.a. Uma rápida comparação da performance social nestes três momentos revela que o traço distintivo do período recente reside na mais expressiva retração da camada de miseráveis, com o correspondente avanço da massa trabalhadora e, sobretudo, da baixa classe média. Ou seja, verifica-se uma significativa melhora na base da pirâmide social” (p. 11-12).

Claro que o desafio é manter estas tendências – ritmo mais forte de crescimento e redução da pobreza – por um período longo de tempo.

O artigo completo está na 9ª edicação da Carta Social e do Trabalho http://www.eco.unicamp.br/docdownload/publicacoes/cesit/outrasPublicacoes/outrasPublicacoes/outraPublicacao68/Carta%20Social%209.pdf

Política Fiscal: balanço positivo do 1º semestre

Ontem, a STN divulgou o resultado fiscal do Governo Federal http://www.stn.fazenda.gov.br/hp/downloads/resultado/2010/Apresentacao_jun2010.pdf

Rapidamente, alguns dados que mostram sustentabilidade e mais qualidade das finanças públicas:

1) Aumento do Investimento Total em 72%, puxado pelo aumento do gastos do PAC em 85% em relação a 2009. A realização dos investimentos tem sempre uma defasagem de tempo (licenciamentos, licitação, disputas jurídicas e atrasos naturais que ocorrem até na reorma de casa). O PAC nicialmente deu um norte, retomou o planejamento e deu mais prioridade para o investimento público, os resultados começam a aparecer.

2) Os gastos com pessoal aumentaram, em funçao da reestruturação das carreiras e dos reajustes salariais. Ok. Mas, graças ao crescimento econômico, o percentua deste gasto em relação ao PIB caiu em 4,5%. Veja como o crescimento é importante.

3) O mesmo é válido para  gasto previdenciário. Grande parte do aumento dos aposentados – que para os críticos iria quebrar a previdência – foi compensado pelo crescimento da receita em função da crescimento da massa salarial (10,8% no período dez/2009 a mai/2010 contra mesmo período anterior). Houve déficit, mas com a manutenção do crescimento econômico, ese será tranquilamete absorvido.

Saindo da questão estritamente fiscal, o patamar de juros mais baixos reduz despesas financeiras e libera recursos para o gastos social e investimento. Diante disso, o boletim divulgado pelo STNo superavit do governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) foi de R$ 24,8 bilhões, ou 1,46% do PIB. Com isso, será possível atingir a meta de 3,3% do Produto Interno Bruto de superavit primário ao final do ano. 

Sem dúvida, um balanço muito positivo!

Políticas de inovação, ciência e tecnologia

Na folha de ontem, foram divulgados os resultados de uma pesquisa sobre a inovação tecnológica no país (reproduzida em http://www.protec.org.br/noticias.asp?cod=6437).

Os resultados mostram que mais de dois terços das empresas multinacionais desenvolveram apenas 10% dos produtos por aqui. Dentre as nacionais, este percentual é de 18,8%, sendo que do outro lado, apenas 35% delas desenvolveram mais de 90% dos seus produtos internamente. As perspectivas para os próximos 3 anos melhoram, mas não dão grande alento.

Se, por um lado, a taxa de investimento pode ultrapassar 20% este ano; por outro, a meta de gasto das empresas em P&D é de 0,65% do PIB. Sem dúvida, muito pouco.

O que falta para as empresas nacionais e estrangeiras instalarem seus departamentos de P&D no Brasil? Do ponto de vista do mercado, a pesquisa aponta a baixa capacidade de mão de obra qualifica no país para este fim (46% das empresas responderam desta forma). É evidente que precisamos investir em capital humano. Mas, não é só isso. E do ponto de vista da política de inovação, ciência e tecnologia, o que é preciso fazer? Para estimular a inovação tecnológica é necessário aprofundar nas seguintes áreas:

1)      Políticas creditícia e fiscal-tributária, mais especificamente, sugiro direcionamento de crédito, com taxas de juros subsidiadas para investimentos em inovação e desenvolvimento de novos produtos para as empresas (via BNDES), desoneração de impostos e ampliação dos fundos de estímulos, como os administrados pela FINEP e agências de fomento.  

2)      Formação de empresas competitivas, sabendo que aqui economias de escala são determinantes. Somente grandes empresas são capazes de investir em pesquisa e desenvolvimento de produtos, portanto é preciso estimular a formação de grandes empresas nacionais em setores altamente inovadores. Um caso exemplar é a indústria farmacêutica.

3)  Atuação direta do governo em setores estratégicos, com maiores investimentos públicos, tais como nos setores energético e militar (empresas como a Embraer e a Petrobrás são casos exemplares de empresas brasileiras inovadoras, sendo a primeira de origem militar e a segunda é a maior empresa brasileira, entre as 35 maiores do mundo).

Estas linhas estão parcialmente contempladas pelas diretrizes da atual política industrial brasileira, detalhada em http://www.abdi.com.br/?q=system/files/PDPSITE.pdf

Para o debate eleitoral…

Recomendo a leitura da coluna do Delfim Neto na última edição da Carta Capital. O ex-ministro comemora o resultado do PIB do primeiro trimestre e, em tom otimista, ela afirma “que o Brasil finalmente recuperou a sua capacidade de desenvolvimento. Esse não é um aspecto novo na economia brasileira. Vamos olhar um pouco no retrovisor, por exemplo, para o período pós-Segunda Guerra Mundial, a última grande guerra do século XX: de 1948 a 1984, o Brasil cresceu 7,5% ao ano, até o desenvolvimento ser interrompido durante a dupla crise de energia (como importadores de petróleo) e do balanço de pagamentos, devido à necessidade do endividamento entre 1975 e 1979 para pagar as importações”.

Compartilho com esta visão de retomada do crescimento econômico e digo mais: diferentemente do período citado, a fase mais recente de crescimento vem acompanhada de redução da desigualdade, de democracia consolidada, de mais respeito ao meio ambiente e de avanços nas políticas sociais. Mas ainda estamos longe de resolver os principais problemas brasileiros: violência, corrupção e ausência de valores educacionais e culturais, como a valorização da ética e do trabalho!

Contudo, entendo este momento como uma fase inicial, isto é, o alicerce de uma construção de projeto de Nação. Mas ainda há muito que fazer! E aponto dois importantes para continuar esta obra:

1) Compatibilizar de vez os rumos da política macroeconômica com maiores investimentos sociais e de infra-estrutura por parte do governo, só assim será possível disponibilizar mais recursos para as políticas sociais e eliminar gargalos para garantir um crescimento sustentável;

2) Recuperação do tecido social, o que envolve uma grande revolução nas áreas de educação e cultura. Esta questão é complexa e de longo-prazo. Prova disso, por exemplo, é que o fator que mais afeta o desempenho escolar do aluno é o nível de escolaridade da mãe. Ou em termos pedagógicos, a valorização da educação pela mãe transmitida ao filho(a), com o envolvimento dela na educação da criança. Ou seja, a coisa é geracional! Precisamos formar uma geração para afetar a próxima. O mesmo pode ser dito em relação aos valores em geral difundidos em uma sociedade.

Penso que tais questões – a primeira mais tática e a segunda mais estratégica – deveriam estar presentes no debate eleitoral deste ano.

A voz do morro

No último feriado (09/07), estive mais uma vez na quadra da escola de samba Mangueira, no Rio de Janeiro. Acompanhado da minha esposa e de um grupo de amigos, curti bastante a feijoada da verde e rosa. Sem dúvida, a escola de samba faz parte da cultura popular brasileira, mais forte ainda no Rio. Lá, pude perceber a força do samba, como meio de promover a integração social e como forma de manifestação da vida cotidiana nas comunidades. Quanta emoção! Sei lá, Mangueira!

Fiquei emocionado com a apresentação da escola Salgueiro na quadra da estação primeira (isso mesmo, há disputa de carnaval, mas não há a rivalidade doentia do futebol). A emoção veio ao ver a raça dos componentes da agremiação e a felicidades das pessoas ali…. as pessoas estavam felizes, independentes dos problemas pessoais e/ou sociais que poderiam estar enfrentando. Não sou especialista no tema, mas entendo que a música, a dança e a cultura popular devem ter este objetivo: deixar as pessoas felizes! Sempre digo: entre o erudito e o popular, sou mais o popular.

Claro, que há interesses comerciais (a festa da mangueira tinha vários patrocinadores), mas prevaleceu ali a alegria das pessoas e a grandeza da instituição Mangueira, constituída na favela, por gente simples, pobre, mas talentosa, virtuosa e apaixonada. Baluartes!

 Há também a exposição do corpo feminino, mas não sou moralista. Acho bonito! O samba tem sensualidade, mas não vejo apelação (como no funk). No meio do samba, percebi um alvoroço. Briga? Não! Lá não tem isso, não mesmo! Era o Ronaldinho Gaucho. Um camarote até então vazio, lotou! Ficou cheio de mulheres, selecionadas por um segurança do jogador. Outro aspecto da cultura brasileira veio à minha mente: a valorização do talento e da riqueza rápida, em contraposição à valorização ao trabalho, presente em Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda. Claro, a riqueza rápida, não pela via do trabalho, também era o objetivo de várias das mulheres que subiram ao camarote.

Mas este não era o núcleo protagonista desta história. A atração principal era os ritmistas, as baianas, as bandeiras das agremiações, as mulatas e a multidão. O camarote do Gaucho não foi o foco! Os atores principais eram pessoas comuns. Esta inversão de papéis entre protagonistas e coadjuvantes foi promovida por ele: o samba!

“ Eu sou o samba /A voz do morro sou eu mesmo sim senhor / Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei dos terreiros / Eu sou o samba / Sou natural aqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem leva a alegria para milhões / De corações Brasileiros / Mais um samba queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo do país / Viva o samba vamos cantando esta melodia / Pro Brasil feliz” (A voz do morro, de Zé Ketti).

Pobreza no Brasil

Copio abaixo um trecho da conclusão do trabalho do IPEA sobre a pobreza no Brasil, disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/100713_comunicado58.pdf

Vale notar o destaque dado à atuação do Estado junto ao ritmo de crescimento mais acelerado.

Recomendo a leitura, com atenção aos dados.

” O crescimento econômico, ainda que indispensável, não se mostra suficiente para elevar o padrão de vida de todos os brasileiros. A experiência recente do País permite observar que as regiões com maior expansão econômica não foram necessariamente as que mais reduziram a pobreza e a desigualdade. Cabe assinalar também tanto o perfil do crescimento econômico – se impulsionador intensivo ou não de empregos e da qualidade dos postos de trabalho gerados – como a capacidade de correção e proteção social das políticas públicas implementadas, bem como a convergência da sociedade no enfrentamento contínuo dos problemas brasileiros.

Por isso, ganha maior relevância o papel do Estado – em suas distintas esferas governamentais e concomitantemente às instituições da sociedade civil – na execução de uma política nacional de desenvolvimento que possibilite ao País enfrentar todos os problemas de ordem social. Por meio de políticas de Estado, não apenas de governos, o Brasil protagonizaria um novo padrão desenvolvimento capaz de torná-lo  a quinta economia do mundo, não mais desassociada dos necessários avanços sociais” (IPEA, 2009).

E agora, José?

“A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, noite esfriou, e agora, José ? E agora, você ?”

(Carlos Drummond de Andrade)

Neste momento, nossa seleção está arrumando as malas e pegará o próximo vôo para o Brasil. O que faltou para a seleção de Dunga? Na minha opinião, ficou faltando duas coisas: Neymar e Ganso…rs. É verdade, não é papo de Santista…. os dois craques serviriam justamente para um jogo como este: o Brasil perdendo (isto faz parte do futebol) e faltando 25 minutos para o fim, era preciso mexer rápido no time …. E agora, Dunga?

Quais eram as opções da seleção brasileira para uma situação como esta? Era preciso colocar criatividade em campo e correr contra o tempo… aí, sim: o entrosamento entre os três jogadores do Santos (Neymar, Ganso e Robinho), poderia fazer a diferença.

Contudo, deve-se reconhecer o trabalho do Dunga… ele montou um time vencedor. A base da seleção era essa aí mesma… mas não teria diferença se ele optasse pela dupla santista ao invés de Grafite e Kleberson (ou Julio Batista). Além de ganhar opção como falei acima, o Dunga traria o povo junto com a seleção e ainda prepararia uma base para a copa de 2014.

Perder faz parte, ninguém deve ser crucificado! Devemos ser compreensivos…o time foi lutador e vencedor. Como eu sempre digo: falar é fácil, difícil é se apresentar e fazer. Mas sem dúvida, faltou opção e estratégia para uma situação de revés.

Pra terminar, mais Drummond: o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José ?

Abraços,

Daniel Vazquez

obs.: como todos sabem, gosto de futebol … mas não sou especialista (embora eu tenha sido um centroavante)… pra quem gosta e quer comentários mais pertinentes sobre esta copa, recomendo: www.nopiquedabola.com.br (Blog do meu amigo Raul).