Arquivo do mês: maio 2010

Crise Europeia e o Brasil

Divido a opinião de que a crise européia não vai comprometer o bom momento que a economia brasileira está passando. Porém, há riscos em um horizonte de médio-prazo sobre o balanço de pagamentos que pode colocar em xeque uma importante conquista dos últimos anos: a redução da vulnerabilidade externa. 

Diante de uma crise internacional, tendo em vista o peso da Europa, os preços de comodities podem cair, diminuindo nosso saldo comercial. Com a balança de serviços também (historicamente) negativa,a previsão é de aumento do déficit nas transações correntes. Aí é que mora o perigo!

Considerando que o ingresso de capitais também será menor devido à aversão ao risco, podemos ter perda de reservas. Hoje, temos um colchão largo: U$ 250 bi. Mas os números mostram que o balanço de pagamentos pode fechar negativo em até U$ 20 bi  neste ano (conta corrente U$ -50 bi e conta capital U$ +30bi).

É certo, porém,  uma taxa de câmbio maior (real desvalorizado), mas os preços de comodities em queda e a demanda externa retraída são  entraves fortes para as exportações brasileiras.

Portanto, o déficit nas transações correntes tem que ser enfrentado. Temos reservas, mas a recuperação da economia internacional pelo visto não será rápida. Depender da entrada de capitais externos condenou o Brasil às taxas de juros elevadas e ao baixo crescimento durante os anos 90 até 2003.  De novo não, nem pensar!

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Mercado de trabalho na região

ESTE ARTIGO FOI PUBLICADO NO JORNAL ATRIBUNA DE SANTOS EM 23/05/2010.

O primeiro trimestre de 2010 foi bastante positivo em relação ao desempenho do mercado formal de trabalho na região: saldo positivo de empregos, crescimento da massa salarial e diminuição da diferença entre os salários dos admitidos e desligados, conforme os dados do CAGED/ MTE. O número de empregos criados foi 30% superior em comparação ao mesmo trimestre do ano passado, durante o auge dos efeitos da crise sobre a economia brasileira. Nos três primeiros meses de 2010, o número (saldo) de empregos formais foi 2187 vagas, contra supressão de 2214 vagas no primeiro trimestre de 2009.

Os setores responsáveis pelo crescimento do emprego foram, pela ordem: 1) a construção civil, responsável por quase um terço do aumento do emprego; 2) o setor de serviços, cuja contribuição para o saldo positivo foi de 23%; 3) seguido, pela indústria de transformação que respondeu por pouco mais de 20% do saldo de empregos gerados. Por faixa etária, o emprego dos jovens com até 24 anos correspondeu a 70% deste saldo, enquanto que na faixa acima de 50 anos, o saldo de empregos foi negativo (-159 vagas).

A geração de empregos exigiu um nível de escolaridade maior. A quantidade de vagas geradas (saldo) para profissionais com, no mínimo, ensino médio completo foi de 2.595, valor 20% maior que o saldo total, o que significa dizer que houve supressão de empregos de baixa escolaridade. Portanto, a qualificação deve ser encarada cada vez mais como uma estratégia de sobrevivência no mercado de trabalho, mesmo que isto não seja suficiente para garantir níveis maiores de salários. Já que é comum no mercado de trabalho, não só na RMBS, a troca de salários mais altos pela oferta de novas vagas com remuneração menor e, assim, a razão entre o salário médio dos admitidos e dos desligados é sempre menor que 1, mesmo com as novas vagas sendo preenchidas por trabalhados mais qualificados (porém, mais jovens). Contudo, esta relação chegou a 0,96 no último trimestre, contra 0,88 para o mesmo período do ano anterior.

Diante deste quadro, com aumento do saldo e redução da diferença salarial entre admitidos e desligados, observou-se um crescimento da massa salarial no mercado formal de trabalho que promoveu uma injeção de R$ 787 mil. No primeiro trimestre de 2009, a massa salarial sofreu uma redução de mais de R$ 5,2 milhões. Portanto, são vários os motivos para comemorar o bom desempenho do mercado formal de trabalho nos três primeiros meses de 2010, cuja explicação está fortemente correlacionada com o desempenho da economia nacional.

Todavia, quando comparamos a RMBS com as regiões de São Paulo (RMSP) e Campinas (RMC), é possível constatar que esta ainda é uma região de baixa remuneração. Apesar do aquecimento do emprego no período analisado, o salário médio dos admitidos aqui foi 7% menor que na RMC e 15% menor que na RMSP. Não se trata apenas de uma questão conjuntural, pois os salários são menores em todos os setores (exceto em relação à indústria de transformação campineira) e, nem tão pouco, deve-se à qualificação do trabalhador, já que esta distância aumenta quanto maior é a escolaridade exigida para a vaga.

O desafio, portanto, está em melhorar a composição do emprego na RMBS. O caminho passa necessariamente pela continuidade do crescimento econômico e, mais estrategicamente, por uma política que promova o adensamento de setores responsáveis pela oferta de mais e melhores empregos.